Acompanhamos motoristas de diferentes tipos de transporte para falar sobre a atividade e homenagear os trabalhadores que movimentam o Brasil

Foto: Gueldon Britto

 

​Quando Santos Dumont, o pai da aviação, trouxe da França, em 1891, um Peugeot com motor a explosão, não poderia imaginar a revolução que faria no país. O modelo, que desembarcou de navio no porto de Santos, foi o primeiro de uma frota que hoje já ultrapassa os 98 milhões de veículos, segundo dados do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito).
Mais de cem anos depois, o que se vê é um país sendo movimentado sobre rodas – sejam elas de caminhões, de ônibus, de táxis ou de veículos de passeio – e conduzido pelas mãos de motoristas que têm a responsabilidade de transportar pessoas, alimentos, insumos industriais, medicamentos e tantos outros produtos essenciais.
Por esse motivo, é justa a comemoração do Dia do Motorista, celebrado em 25 de julho – Dia de São Cristóvão, santo católico considerado o padroeiro dos motoristas. Nesta reportagem especial, contamos histórias de alguns desses profissionais. Fizemos uma viagem de Brasília a Goiânia em um ônibus; retornamos à capital federal em um caminhão; conversamos com o motorista de um time de futebol; com um taxista contador de histórias; e com um motorista que já conduziu figuras emblemáticas da política brasileira.

Seguindo na fé

“A gente sempre pede a proteção de Deus, pois a responsabilidade é grande. Eu estou levando a vida de várias pessoas”, diz, com a fala mansa, Gileno Araújo de Oliveira, 52 anos, ao sair da rodoviária de Brasília (DF), às 10h, em direção a Goiânia (GO). Há três anos, ele percorre esse mesmo trajeto todos os dias na direção do ônibus da Viação Araguarina. No início de julho, a reportagem acompanhou uma dessas viagens.
Pelo caminho, enfrenta o trânsito pesado na saída do Distrito Federal e na chegada a Goiânia. “A estrada é boa, principalmente em Brasília, mas, quando chegamos a Goiânia, a coisa aperta um pouco. Tem muitos carros na rua, e muitos deles não cumprem as regras de trânsito, mas já me acostumei”, diz ele conformado.
O motorista tem orgulho ao dizer que nunca sofreu nenhum acidente grave, apenas pequenos esbarrões em situações cotidianas. Mas, quando o assunto é segurança, ele lembra de situações delicadas. “Já fui assaltado duas vezes quando era caminhoneiro, mas, felizmente, nada grave aconteceu comigo.”
Desembarcamos na rodoviária de Goiânia às 13h30, dentro do horário previsto. Oliveira se despede de todos os passageiros e desliga o motor do ônibus, encerrando mais uma viagem. Também nos despedimos dele, que segue para uma pausa do almoço antes de iniciar a viagem de volta para Brasília.
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Na casa do “Seu Zé”

“O caminhão é a minha casa. É aqui que eu vivo. Foi aqui que eu conquistei tudo que tenho na vida. Comprei apartamento, casa. Eu nasci para ser caminhoneiro.” Foi com uma gargalhada peculiar e com essa declaração que José Marçal Rafael, 74 anos, iniciou a conversa dentro da boleia da carreta-baú, carregada com 24 toneladas de produtos de limpeza.
Iniciamos a nossa viagem de volta a Brasília às 15h30, no centro de distribuição da PHD Logística, empresa onde Rafael trabalha há mais de 20 anos. Com 48 anos de profissão, “Seu Zé”, como é conhecido, conta que, no início, foi difícil e os caminhões eram bem diferentes dos atuais. “Eu comecei em 1976, quando tirei carteira de motorista de caminhão. Eu rodava com um ‘chevrolezinho’, transportando pneus. Para mim, era a maior alegria do mundo fazer aquele trabalho. Mas os veículos eram bem mais difíceis para dirigir. Hoje, os caminhões têm muito mais tecnologia.”
Ele tem a percepção de já ter rodado mais de 1 milhão de quilômetros e conta que, por causa das suas viagens, já conheceu todas as capitais do Brasil, além de países como Argentina, Chile, Paraguai e Bolívia. Esse é um dos pontos positivos da profissão para muitos caminhoneiros. Um levantamento realizado pela Confederação Nacional do Transporte em 2016 mostrou que 47% gostam da possibilidade de conhecer novos lugares e 33%, da chance de conhecer pessoas.
Às 19h35, chegamos ao centro de distribuição da PHD, em Brasília. Antes de descer da boleia, “Seu Zé” ainda responde o que o move depois de tantos anos de estrada: “a alegria de poder estar ao volante do meu caminhão todos os dias”.
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Uma vez até morrer

“Eu me sinto uma pessoa muito realizada e feliz por estar aqui. Se eu puder, levo o ônibus do Atlético até morrer.” Quando Glauber José Barbosa, 33, chegou, em 2012, para trabalhar como porteiro do Centro de Treinamento do Clube Atlético Mineiro, localizado em Vespasiano (MG), não poderia imaginar que, em pouco tempo, estaria tocando samba com Ronaldinho Gaúcho no fundo do ônibus do clube.
Antes de chegar ao Atlético, trabalhou como cobrador e motorista de transporte urbano em Belo Horizonte (MG) e, também, foi motorista de caminhão. “Cheguei ao Galo em 2012 para trabalhar na portaria. Aí surgiu uma vaga para levar os meninos das categorias de base e, em 2014, eu tive a oportunidade de começar a levar o time profissional.”
Em dias de jogos (como o que ocorrerá nesta quarta-feira, 25 de julho – Dia do Motorista –, pelo Campeonato Brasileiro, no Estádio Independência), a dedicação é especial. “Eu chego e lavo o ônibus todo, dou um trato e passo um pretinho nos pneus. Depois, arrumo todos os encostos das cadeiras e benzo um por um. Normalmente, a gente sai duas horas antes do início do jogo.”
O percurso entre o Centro de Treinamento e o estádio – que leva cerca de 30 minutos – é o momento de maior alegria. “O supervisor do ônibus diz para eu ficar tranquilo e calmo e deixar a torcida fazer a festa. Sobe aquela fumaça que eles fazem nas ruas por onde o ônibus passa, até o estádio. Não dá para enxergar nada. Eu vou olhando as faixas no asfalto, andando bem devagar.”
Glauber José se orgulha de dizer que já transportou jogadores de renome mundial, como Robinho, Fred, Tardelli, Jô e Bernard. Sobre a convivência com os atletas, diz que todos são muito educados. Porém, guarda uma lembrança especial de Ronaldinho Gaúcho. Certa vez, depois que todos haviam desembarcado, o motorista encontrou o jogador no fundo do ônibus. “Ele estava com um tantan (instrumento musical) no colo e com a cabeça baixa, parecendo que estava fazendo uma oração. No rádio, estava tocando Fundo de Quintal. E ele olhou para mim, me passou um pandeiro e me pediu para tocar com ele. Tocamos por quase dois minutos. Aí ele desceu com aquele sorriso gigante, me deu um abraço e ganhamos o jogo no final.”
Atleticano desde o berço, Glauber José confessa que, em dias de jogos decisivos, sofre como qualquer torcedor. Mas o contato com os jogadores ajuda-o a se tranquilizar. Ele também tem um ritual para momentos antes das partidas. “Minha mãe sempre manda uma mensagem e diz: meu filho, não olha nem para a direita e nem para a esquerda. Siga em frente e vai com Deus, porque ele está no seu caminho.”
Foto: Divulgação/Atlético

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O contador de histórias

De Porto Alegre (RS), a história é do taxista Mauro Castro, de 55 anos. Figura conhecida na capital gaúcha, Castro fez do seu cotidiano no trânsito e das conversas ao volante a inspiração para, também, ser escritor. “São das histórias que escuto no meu táxi que saem as ideias para os meus livros. Eu gosto de conversar com as pessoas. A cada passageiro que levo, uma história diferente é contada, e isso me marca”. Há 13 anos, ele divide o tempo entre o volante do táxi e os textos. Foi cronista de jornal, criou o blog Taxitramas e publicou um livro de mesmo nome, que já está em seu quarto volume.
Castro começou na carreira ainda jovem e percebeu que a profissão lhe conferia a liberdade e o contato com muita gente. “Eu posso trabalhar sem ter uma rotina e ter contato com as pessoas diariamente por meio das conversas e das várias histórias que escuto”.
A autonomia para definir o horário de trabalho é ponto positivo para 62% dos taxistas, segundo uma pesquisa feita pela Confederação Nacional do Transporte junto a esses profissionais em 2016. Outros 40% apreciam, também, a flexibilidade da jornada.
Do banco do táxi, Castro acompanha as transformações pelas quais a profissão vem passando. “Eu comecei em um ‘fusquinha’ sem ar-condicionado. Desde então, muita coisa mudou. O número de carros cresceu demais, e a postura das pessoas também mudou. Hoje em dia, elas falam menos devido à correria do cotidiano. Além disso, cresceram as opções de transporte para os passageiros, o que também impacta a profissão.”
Otimista em relação ao futuro, o taxista afirma: “enquanto houver um táxi em Porto Alegre, vou dirigir por aqui”, conclui.
Foto: Arquivo Pessoal
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​Dirigindo com autoridade

Quando chegou a Brasília, em 1978, Geraldo Eustáquio de Oliveira, 66 anos, não poderia imaginar que um dia conduziria um carro com personalidades que construíram a história da política brasileira. Trabalhando há 20 anos na Câmara dos Deputados, Oliveira conta que já dirigiu, em ocasiões diferentes, veículos nos quais estavam o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso e o ex-governador do Rio de Janeiro Leonel Brizola.
Para exercer a profissão, Oliveira passou por alguns treinamentos específicos. “Fiz um curso com policiais sobre questões de segurança e, também, outros sobre direção defensiva.” Para saber como se portar diante das personalidades que transporta, o motorista cita que aprendeu a seguir a regra. “Geralmente, quando a autoridade chega, a gente desce do carro e fica acompanhando até ela entrar no veículo. Em locais mais isolados, por exemplo, ficamos sempre mais próximos de onde eles estão”, relata.
A rotina de trabalho de Oliveira começa por volta das 6h. Como mora fora do Distrito Federal, ele precisa sair bem cedo por conta do trânsito. “Eu fico o dia todo à disposição do parlamentar. Tem dias em que acontece reunião de partido após o expediente, aí é esperar até acabar. Saio bem tarde nesses dias.” Mas nem mesmo as noites de reunião mudam a felicidade que Oliveira carrega por ser motorista. “Eu falo para todos os que me perguntam se eu mudaria de profissão e digo que sou feliz por estar servindo as pessoas da melhor maneira possível. Eu não trocaria de profissão, pois gosto do que eu faço. E se você fizer o que gosta, fará sempre bem feito.”
Foto: Arquivo Pessoal​​
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A origem do Dia do Motorista

O Dia do Motorista, comemorado em 25 de julho, também é o Dia de São Cristóvão, santo católico considerado o padroeiro dos motoristas no Brasil. Cristóvão significa “aquele que carrega Cristo”.
Reza a lenda que Cristóvão trabalhou por um bom tempo transportando pessoas nas costas para que pudessem atravessar um rio.
Certa vez, ele colocou um menino nas costas e, a cada passo que dava, o seu peso ia aumentando. Então, disse: “Parece que estou carregando o mundo nas costas”. O menino respondeu: “Tiveste às costas mais que o mundo inteiro. Transportaste o criador de todas as coisas. Sou Jesus, aquele a quem serves”. Desde então, passou a ser conhecido como protetor e padroeiro dos viajantes e motoristas.

 

Carlos Teixeira
Agência CNT de Notícias

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