Proposta da prefeita Anne Hidalgo é tornar o transporte coletivo gratuito na capital francesa até 2020 (Foto: Laura Azeredo)

Por Laura Azeredo

Paris é conhecida por sua rede de transporte público eficiente, conectando diferentes modos, como trem, metrô, ônibus e até bicicletas públicas, de maneira a facilitar a mobilidade urbana. A maioria da população utiliza o transporte público como principal forma de locomoção: quase 60% dos deslocamentos na cidade são realizados via trem, metrô e ônibus. No entanto, apesar da oferta diversa de meios de transporte, ainda persiste o problema do transporte individual, predominante nas ruas da capital francesa.

Pensando nisso, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, apresentou nas últimas semanas uma proposta ousada: tornar o transporte público gratuito na capital, a partir do ano de 2020. Hidalgo afirma que “a questão da gratuidade dos transportes pode ser uma das peças-chave da mobilidade urbana do amanhã”. Segundo a prefeitura de Paris, o principal objetivo da medida é melhorar a qualidade do ar da cidade, fazendo com que os habitantes deixem seus automóveis em casa e utilizem o transporte público como principal forma de deslocamento.

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Reduzir os deslocamentos feitos de automóvel e melhorar a qualidade do ar são os principais objetivos da medida (Foto: Laura Azeredo)

Neste primeiro momento, a prefeitura afirmou que irá realizar estudos de viabilidade, analisando outras cidades que implantaram a medida, tanto dentro do território francês como no resto do mundo. Atualmente, 23 cidades francesas já adotaram a medida. Entre elas, está Compiègne, de 40 mil habitantes, que implantou a gratuidade nos seus meios de transporte há mais de 40 anos. Hidalgo afirma que na Alemanha também existem bons exemplos de prefeituras que implantaram este modelo, mas aqueles que são contra a medida argumentam que são escalas totalmente diferentes de cidade. Além disso, em muitos casos, a gratuidade se aplica apenas aos habitantes que moram dentro do limite municipal, o que, em Paris, acabaria prejudicando ainda mais a população que diariamente necessita se deslocar da periferia para trabalhar e estudar na capital.

Apesar do objetivo da medida ser claro – ou seja, a busca por uma cidade mais sustentável e menos poluída –, o modelo de financiamento ainda não é. Atualmente, na região parisiense, cerca de 28% do financiamento da rede de transportes provém da venda de bilhetes individuais e do passe Navigo, o cartão recarregável de transporte. Esse valor representa aproximadamente três bilhões de euros. Portanto, com a implementação da gratuidade, será necessário buscar um modelo de financiamento que compense essa quantia. A prefeitura declarou que uma das propostas seria, concomitantemente, a implementação de pedágios urbanos em diversas áreas da cidade, desencorajando os deslocamentos via transporte individual e contribuindo para a sustentabilidade econômica da oferta gratuita de transporte público.

Foto: Laura Azeredo

Conversando com alguns habitantes locais, a maioria diz que ainda não tem uma opinião formada sobre o assunto, mas teme o aumento de impostos, que já são muito altos na capital francesa. Outro receio é de que a medida interfira na qualidade dos serviços de transporte, que não é considerado ideal pelos parisienses. Além disso, muitos moradores temem que, com a falta de recursos, o poder público não amplie as redes de transporte conforme a demanda que possa surgir nos próximos anos, sobrecarregando ainda mais as linhas existentes.

A prefeitura de Paris já começou a aplicar a proposta de gratuidade para uma parcela da população: a partir de 1º de junho deste ano, idosos com 65 anos ou mais e pessoas com deficiência terão direito ao passe Navigo gratuito, somando cerca de 200 mil pessoas. A resolução, contudo, se aplica apenas às pessoas nessas condições que apresentem renda máxima de 2.200 euros por mês. Trata-se, portanto, de uma medida que facilita o acesso ao transporte para pessoas de renda mais baixa, incluindo os moradores das regiões localizadas na periferia da capital.

Ainda não se sabe se a medida será aplicável a toda a população, dada a escala da cidade de Paris, uma metrópole de 12 milhões de habitantes. Alguns especialistas afirmam que é inviável que o projeto saia do papel, enquanto outros acreditam na possibilidade de que seja implementado dentro de dez anos. Assim, os estudos preliminares solicitados pela prefeitura, com finalização prevista para o meio do ano, deverão mostrar se a ação será de fato viável e sustentável economicamente. Apesar dos questionamentos da oposição, Anne Hidalgo segue firme na instauração de medidas que conduzem a capital francesa a um futuro mais sustentável. Se o plano da prefeita for bem-sucedido, Paris será a primeira metrópole mundial a ter um sistema de transporte público gratuito, servindo de exemplo para diversas cidades e mostrando que é possível vislumbrar um horizonte com grandes metrópoles menos poluídas, mais coletivas e mais sustentáveis.

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Laura é formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e possui especialização em Gestão Estratégica do Território Urbano na Unisinos. Já trabalhou como Analista de Desenvolvimento Urbano no WRI Brasil e como urbanista, desenvolvendo projetos de desenho e planejamento urbano. Atualmente, Laura estuda e vive em Paris.

Fonte The City Fix Brasil 

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